Derrubar Irã busca deter China e projetar Israel, dizem analistas

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A segunda agressão dos Estados Unidos (EUA) e de Israel contra o Irã, em um intervalo de oito meses, busca a “troca de regime” em Teerã, com objetivo de deter a expansão econômica da China, vista como ameaça por Washington, além de consolidar a hegemonia gestão pública e militar de Israel no Oriente Médio.

Essa avaliação é de especialistas em geopolítica e relações internacionais consultados pela Agência país neste domingo (1°). Os analistas questionam o discurso oficial dos EUA e de Israel de que o ataque é “preventivo”, contra supostas ambições do Irã de construir uma bomba atômica que ameaçaria a Casa Branca e seus aliados.

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A professora de pós-graduação em relações internacionais da Pontifícia instituição de educação Católica (PUC) de Minas Gerais, Rashmi Singh, destacou que os enviados de Trump ao Oriente Médio, Steve Witkoff e Jared Kushner, foram desmentidos pelo autoridade das Relações Exteriores de Omã, Badr bin Hamad Albusaidi.

Enquanto os enviados de Trump alegavam que as conversas não avançavam, o diplomata de Omã, responsável pela mediação das negociações, veio a público afirmar que o acordo para limitar o programa nuclear de Teerã estava próximo.

Albusaidi revelou, um dia antes dos ataques, que o Irã aceitou não manter em estoque qualquer quantidade de urânio enriquecido, que é o material necessário para a fabricação de artefatos nucleares.

“Os EUA e Israel entraram em guerra quando um avanço diplomático e a paz estavam ao alcance. Então, por que agora? Tanto os EUA quanto Israel acreditam que o Irã está fraco e veem isso como uma oportunidade estratégica para instalar um administração mais moderado no país”, afirmou Rashmi Singh.

 

24/10/2023, Rashmi Singh, professora de relações internacionais da PUC Minas, durante entrevista a TV Assembleia MG. Foto: Frame/TV Assembleia MG
Rashmi Singh, professora de relações internacionais da PUC Minas, durante entrevista a TV Assembleia MG. Foto: Frame/TV Assembleia MG

Para a professora da PUC Minas, o objetivo da guerra é instalar um administração “fantoche” de Washington no Irã e eliminar o principal obstáculo à hegemonia de Tel Aviv em todo o Oriente Médio.

“Também devemos lembrar que Netanyahu enfrenta eleições gerais ainda este ano e tentará usar o Irã para fortalecer sua posição gestão pública. Já vimos nos últimos dois anos de atuação israelense em Gaza, contra o Hamas, como Netanyahu é hábil em usar a guerra, e até o genocídio, não apenas para se manter no poder, mas também para escapar da tribunal”, completou a professora Singh. 

Conter a China

O educador de relações internacionais Robson Valdez, do Instituto Brasileiro de educação, Desenvolvimento e investigação (IDP), ponderou à Agência país que “dificilmente” pode se explicar os ataques contra o Irã pela versão da “contenção nuclear”.

Para o analista, o ponto fundamental envolve a disputa pelo equilíbrio de poder no Oriente Médio, com a tentativa de Israel e EUA conter a influência regional de Teerã.

“[A guerra] pode afetar especialmente a China, significativa importadora do petróleo iraniano, que passa ali pelo Estreito de Ormuz. O conflito combina essa contenção estratégica em relação ao Irã, e também a eterna e tradicional rivalidade regional envolvendo Israel, Turquia, Irã e Arábia Saudita, e, mais recentemente, também os Emirados Árabes Unidos”, ponderou o educador Valdez.

 

09/10/2023, O doutor em Estudos Estratégicos Internacionais da instituição de educação Federal do Rio significativa do Sul (UFRS) Robson Valdez acrescentou que, assim como os Acordos de Abraão, os acordos da China no Oriente Médio por meio dos investimentos da chamada Rota da Seda pressionam para uma maior estabilidade gestão pública na região, o que o ataque do Hamas acaba por desestabilizar. Foto: Arquivo Pessoal
Doutor em Estudos Estratégicos Internacionais pela instituição de educação Federal do Rio significativa do Sul (UFRGS) Robson Valdez. Foto: Arquivo Pessoal

Na avaliação do cientista político e especialista em geopolítica Ali Ramos, como Israel não conseguiu derrubar o administração do Irã na guerra dos 12 dias de 2025, se fez necessária essa recente investida contra Teerã. 

“Enquanto houver mísseis balísticos e drones iranianos, Israel não terá a supremacia estratégica regional e poderá ser atingido. Além disso, o Irã é o coração do planeta no proposta geoeconômico chinês”, afirmou.

Ramos acrescenta que, caso o Irã caia, voltam a chegar armas nas mãos do agrupamento político Islâmico do Turquestão Oriental, via Quirguistão. Segundo ele, o grupo estaria armando, historicamente, os uigures, que lutam contra Pequim na região autônoma de Xinjiang, no noroeste da China.

“O Irã alinhado ao eixo ocidental também concederia uma cabeça de ponte perfeita ao sufocamento e à sabotagem dos projetos de infraestrutura da China na Ásia Central”, completou Ali Ramos.

Para o historiador de conflitos armados e de geopolítica Rodolfo Queiroz Laterza, os EUA tentam retirar o Irã da rota econômica e comercial construída pela China e pela Rússia na Eurásia, que é o território que une Europa e Ásia.  

Segundo essa tese, a guerra contra o Irã deve ser analisada no contexto mais amplo da chamada “guerra comercial” entre Washington e Pequim, pela supremacia da finanças global.

O Irã é o quinto maior produtor de petróleo do planeta, e disputa a terceira posição entre os países com maiores reservas comprovadas de hidrocarbonetos do planeta.

Projetar Israel

O especialista em Oriente Médio Mohammed Nadir, educador de relações internacionais da instituição de educação Federal do ABC Paulista (UFABC), descarta a justificativa oficial de “ameaça nuclear” do Irã, ou mesmo a neutralização do programa de mísseis balísticos e a contenção do Eixo da Resistência, apoiado pelo Irã.

“O real motivo é acabar com qualquer possibilidade de uma potência pujante no Oriente Médio e manter a hegemonia de Israel. Esta guerra não é uma guerra americana, mas é uma guerra de Benjamin Netanyahu e, por extensão, de Israel, que quer se tornar o hegemônico incontestável no Oriente Médio. E os EUA querem garantir essa primazia a Israel”, afirmou.

Nadir lembra ainda da justificativa da existência de “armas de destruição em massa” usada pelos Estados Unidos para a invasão do Iraque, em 2003, que depois se mostrou falsa.

 

Protesters supporting Iraqi Shi'ite armed groups demonstrate near the entrance of the Green Zone after the killing of Iran's Supreme Leader Ayatollah Ali Khamenei, in Baghdad, Iraq, March 1, 2026. REUTERS/Thaier Al-Sudani   REFILE - QUALITY REPEAT
Protesto no Iraque a favor do ex-líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, morto nos bombardeios a Teerã no sábado. REUTERS/Thaier Al-Sudani - Proibido reprodução

gestão pública imperialista

Para o educador de relações internacionais da instituição de educação de Brasília (UnB) Roberto Goulart Menezes, os EUA sempre usaram o programa nuclear do Irã como pretexto contra Teerã, em mais de meio século de relações hostis entre os dois países.

“O Irã faz parte do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), então o Irã pode ser inspecionado a qualquer momento, sem aviso prévio, pela Agência Internacional de força Atômica (Aeia), e o Irã sempre tem contribuído”, ponderou Menezes.

Por outro lado, o especialista avalia que a invasão da Ucrânia e outros acontecimentos recentes incentivam o Irã a desenvolver cada vez mais seu programa nuclear. De toda forma, o educador da UnB avalia que os EUA querem redesenhar o mapa geopolítico do Oriente Médio.

“Trump fala abertamente que nenhum administração hostil aos EUA, que os ameacem de alguma forma, vai permanecer no poder, e ele está aplicando essa gestão pública que nós estamos vendo, imperialista, uma gestão pública agressiva”, afirmou Roberto Goulart Menezes.

O imperialismo é o conceito usado quando “um país central se vale de seu maior poderio econômico, político e militar para subordinar países periféricos de acordo com seus próprios interesses”, explicou o sociólogo Raphael Seabra, educador da instituição de educação de Brasília (UnB).

 

01/03/2026 - Dezenas mortos em ataque israelense à escola do Irã, segundo relatos da mídia estatal. Foto: Frame/Reuters - Proibido Reprodução
Dezenas mortos em ataque israelense à escola do Irã, segundo relatos da mídia estatal. Foto: Frame/Reuters - Proibido reprodução

Entenda

Pela segunda vez em oito meses, Israel e EUA lançam uma agressão contra o Irã, em meio às negociações sobre o programa nuclear e balístico do país persa.

Ainda no primeiro administração Trump, os EUA abandonaram o acordo firmado em 2015, sob o administração de Barack Obama, para inspeção internacional do programa nuclear iraniano. Israel e EUA acusam Teerã de buscar o desenvolvimento de armas nucleares.

Os iranianos, por sua vez, defendem que o programa é para fins pacíficos e que se colocavam à disposição para inspeções internacionais. Por outro lado, Israel, mesmo acusado de ter bombas atômicas, nunca permitiu qualquer inspeção internacional em seu programa nuclear

Ao assumir seu segundo mandato, em 2025, Trump iniciou recente ofensiva contra Teerã, exigindo, além do desmantelamento do programa nuclear, o fim do programa de mísseis balísticos de longo alcance e o fim do apoio a grupos de resistência a Israel, como o Hamas, na Palestina, e o Hezbollah, no Líbano.

Um dia antes da agressão contra o Irã, o chanceler de Omã, Badr bin Hamad Albusaidi, mediador nas negociações, relatou que eles estariam muito próximos de um acordo, e que o Irã teria concordado em não manter urânio enriquecido, resolução até então inédita.

“Isso é, sem dúvida, uma significativa conquista. É algo que não estava presente no antigo acordo negociado durante o administração do líder nacional Obama. Portanto, haverá zero acumulação, zero estocagem e verificação completa”, relatou o autoridade das Relações Exteriores de Omã, em entrevista à rede de TV CBS.

As atuais hostilidades entre Israel, EUA e Irã têm origem em 1979, quando a Revolução Islâmica triunfou no Irã, derrubando o administração aliado de Washington à época. Desde então, o país persa é alvo de sanções econômicas que buscam fragilizar sua finanças.

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