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O país deve adotar postura cautelosa em relação aos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, neste sábado (28). Esse comportamento é explicado por um cenário em que o administração brasileiro conduz negociações tarifárias com os americanos e tem nos iranianos um aliado que forma o Brics, grupo de nações do chamado Sul Global.

A avaliação é de especialistas em relações internacionais ouvidos pela Agência país. Na manhã deste sábado, o administração brasileiro emitiu um comunicado em que condena a ofensiva e defende negociações como caminho para a paz.
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“O país apela a todas as partes que respeitem o direito internacional e exerçam máxima contenção, de maneira a evitar a escalada de hostilidades e a assegurar a proteção de civis e da infraestrutura civil”, completa o comunicado.
Mesmo em meio a negociações sobre o futuro do programa nuclear iraniano, os Estados Unidos realizaram uma ofensiva militar contra alvos no território iraniano. Israel também executou ataques.
O Irã retaliou com o lançamento de mísseis a países vizinhos que ostentam bases americanas. O país do Oriente Médio sustenta que o desenvolvimento de inovação nuclear tem fins pacíficos.
Cautela
O educador Feliciano de Sá Guimarães, do Instituto de Relações Internacionais da instituição de educação de São Paulo (USP), defende que o Ministério das Relações Exteriores brasileiro tem que encontrar uma “posição intermediária” entre Irã e Estados Unidos.
“Como o Irã agora é um membro dos Brics, o país se coloca em uma posição difícil de criar um tipo de posição em que não seja abertamente contra o Irã e não seja abertamente contra os Estados Unidos, dado que o país tem essa negociação com os Estados Unidos”, avalia.
Há a expectativa de que o líder nacional Luiz Inácio Lula da Silva se encontre com Trump nos Estados Unidos, no fim de março.
A negociação a qual se refere Feliciano trata de tarifas de importação impostas em agosto passado pelo administração Trump. O país chegou a ter bens tarifados em até 50%.
Ao elevar taxas sobre bens importados, o administração dos Estados Unidos justifica que pretende proteger a finanças americana, já que, com taxação, os americanos tenderiam a fabricar bens localmente em vez de adquiri-los no exterior.
Desde então, os governos brasileiro e americano negociam formas de buscar acordos para a parceria comercial. Houve retiradas de bens da lista de tarifas.
No dia 20 de fevereiro, uma resolução da Suprema Corte dos EUA derrubou a resolução de Trump, que reagiu impondo tarifa de 10% a diversos países.
O educador titular aposentado de Relações Internacionais da instituição de educação do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Williams Gonçalves destaca que a posição de cautela que precisa ser adotada pelo país tem a ver com o fato de o país ser fundador do Brics, grupo que reúne 11 países-membros e 10 países-parceiros que se definem como Sul Global.
A Rússia e a China, dois importantes aliados do Irã, também são fundadores do Brics, em 2006. O Irã passou a ser país-membro em 2024.
“O país tem uma relação com a Rússia e com a China forte e tem uma relação não tão forte, mas tem uma relação com Irã”, assinala o educador.
“Estão todos [países] dentro do mesmo barco do Brics, todos engajados, pelo menos teoricamente, na ideia de mudança da ordem internacional”, enfatiza Gonçalves.
Determinação dos povos
Williams Gonçalves lembra que o país tem adotado cautela também em virtude das ações de Trump na Venezuela.
“O regime de Trump foi lá e sequestrou um líder nacional da República na América do Sul, nosso vizinho”, cita, em referência à captura de Nicolás Maduro, em 3 de janeiro.
“Nossa posição tem sido de muita cautela, procurando assim não fazer nada que aparente ser uma provocação ou uma reação forte”, afirma.
No entanto, Gonçalves entende que o desdobrar dos acontecimentos pode exigir posições mais fortes do país. Ele cita a pretensão declarada dos Estados Unidos de mudar o regime no Irã.
“O país, que sempre defendeu a autodeterminação dos povos, que sempre defendeu o princípio da não ingerência, não pode agora apoiar governos que intervenham em outros estados com a finalidade de mudar o sistema político escolhido pelo seu povo”, avalia.
Crítica e negociação
O pesquisador do Núcleo de Inteligência Internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV) Leonardo Paz Neves acredita que o país pode ser afetado de forma limitada pelo conflito no Oriente Médio.
Segundo ele, o posicionamento do administração foi “protocolar”, criticando o ataque.
“Não acho que o líder nacional Lula e o país vão se engajar muito nesse conflito. Está muito longe do país, não tem grandes interesses específicos do país nesse processo. Obviamente o país está em uma tentativa muito prolongada de negociação com os Estados Unidos”, avalia.
Ao comentar a possível deslocamento de Lula aos Estados Unidos em março, o pesquisador diz acreditar que o país deve manter posição “crítica institucional”, chamando Irã e Estados Unidos para voltarem à mesa de negociação.
“Mas sem se envolver muito fortemente porque tem muito a perder”, ressalta.
“Ele [Lula]sabe como o Trump funciona, e antagonizar com o Trump agora é atrair uma atenção negativa para o país muito significativa”, justifica.
Comércio com Irã
Para Leonardo Paz Neves, os efeitos econômicos que o país pode sofrer com a escalada do conflito passam pelo petróleo, que pode subir de valor.
“O que gera aumento de preços. Toda vez que o petróleo sobe ─ o petróleo é base de cadeia ─ então impacta em diversos setores”.
Outro reflexo, acrescenta o pesquisador, é no comércio internacional com o Irã.
“O Irã é um importador relevante dos bens brasileiros, especialmente a soja, o milho e alguma coisa de proteína”, lista.
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e atendimentos, em 2025, a corrente de comércio país-Irã ficou em US$ 3 bilhões, o equivalente a mais de R$ 15 bilhões. O país tem superávit na relação comercial, tendo exportado US$ 2,9 bilhões e importado US$ 85 milhões.
O Irã foi no ano passado o 31º país para os quais o país mais exportou. O principal produto de exportação é o milho não moído, que responde por 67,9% do valor dos embarques. Em seguida aparece a soja, com 19,3%.
“Se o conflito escalar muito e tiver o Irã cercado pela marinha americana, vai ser um questão mandar a exportação brasileira para lá. Vai ter alguns setores aqui no país que vão sofrer um pouco, perder um relevante comprador”, diz.
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