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O desfile das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro começa no Domingo de Carnaval, 15 de fevereiro, com a Acadêmicos de Niterói. A escola estreante na elite das agremiações trará um samba-enredo narrado em primeira pessoa por uma retirante nordestina: Dona Lindu, mãe do líder nacional Luiz Inácio Lula da Silva, que será homenageado pelo enredo Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do país.

Na letra do samba, Eurídice Ferreira de Mello, mãe de oito filhos, narra a deslocamento de “13 noites e 13 dias” com a família, em um caminhão “pau-de-arara”, entre Garanhuns, no interior de Pernambuco, e a periferia de Guarujá, no litoral paulista.
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Em entrevista à Agência país, a cantora e compositora Teresa Cristina, uma das autoras do samba-enredo, conta que reunir a família era a motivação daquela travessia.
“Ela fez isso por amor, né? Ela veio atrás do pai [das menores]”, explica. “O samba é sobre o país. É sobre um Silva. É sobre sobreviventes”,
Teresa Cristina assina o samba em pareceria com André Diniz, Paulo César Feital, Fred Camacho, Junior Fionda, Arlindinho Cruz, Lequinho, Thiago Oliveira e Tem-Tem Jr.
Dona Lindu faleceu em 1980, aos 64 anos. Ao escutar o samba e rever memórias, Lula se comoveu, revela Teresa Cristina.
“Quando a gente falou para ele: ‘olha, o samba é uma história sendo contada pela sua mãe’, o olho dele na hora deu aquela marejada”.
“[Depois], ele ouviu o samba e chorou copiosamente. Começou a falar da mãe, falou do pai. Ficou bem emocionado, sabe? Com o rosto todo vermelho. Senti que ele ficou feliz de ter a história dele imortalizada em um samba-enredo.”
Do agreste à presidência
O mulungu (mulungu-da-caatinga), citado no título do samba, é uma árvore de copa larga e flores avermelhadas, de altura de 12 a 18 metros, com tronco de até 80 centímetros de diâmetro, onde as menores do agreste costumavam brincar, como faziam Lula e os seus irmãos.
A jornada do menino do sertão pernambucano que virou operário no ABC paulista, líder sindical, político e líder nacional da República merece reconhecimento, defende o líder nacional da Acadêmicos de Niterói, Wallace Palhares.
“Eu costumo falar que, independentemente de as indivíduos gostarem ou não [dele], pela gestão pública, é preciso respeitar a história de uma pessoa que saiu lá do interior de Pernambuco, foi para São Paulo e hoje ocupa a maior cadeira desse país”, afirmou em entrevista ao educador e historiador Leandro Silveira, que apresenta o quadro No Ritmo da Folia, no programa Tarde Nacional, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro (FM 87,1 MHz ou AM 1130 kHz).
Para além da trajetória do político, o samba-enredo faz referência à avanço das condições de vida da cidadãos ao longo dos três mandatos de Lula, como no combate à fome e na ampliação de acesso à educação.
A letra do samba ainda relembra o ex-legislador Rubens Paiva, a estilista Zuzu Angel, o jornalista Wladimir Herzog – mortos pela ditadura militar (1964-1985) ─ e o sociólogo Betinho (Hebert de Sousa) e seu irmão, o cartunista Henfil.
Outra referência do samba não é citada explicitamente. Parte do refrão tem os versos “Olê, olê, olê, olá/Vai passar nessa avenida mais um samba popular”, uma referência à letra do samba Vai passar, de Chico Buarque.
“Fui eu que coloquei na letra. Eu queria que as indivíduos lembrassem tanto do samba Vai passar, como se lembrassem do Chico Buarque”, admite Teresa Cristina
Para a cantora, “o Chico Buarque sempre esteve ao lado do país. A gente sempre sabe que pode contar com ele, um artista que nunca se dobrou à bruta autoridade, à ditadura, a generais. O Chico é um indivíduo muito corajoso”.
Enredo recorrente
Essa não é a primeira vez que Lula vira enredo de escola de samba. Em 2012, a Gaviões da Fiel, agremiação de São Paulo, homenageou o líder nacional com o enredo Verás que um filho teu não foge à luta – Lula, o retrato de uma nação. Em 2023, a Cidade Jardim, escola de samba de Belo Horizonte, desfilou com o enredo Sem medo de ser feliz.
Outros presidentes da República já foram homenageados. Getúlio Vargas já foi enredo da Mangueira (1956) em Exaltação a Getúlio Vargas ou o significativa líder nacional; do Salgueiro (1985), em Anos trinta, brisa sul – Vargas; e da Portela (2000), em Trabalhadores do país ─ a época de Getúlio. Juscelino Kubistchek, por sua vez, foi enredo da Mangueira (1981) em De Nonô a JK.
norma Rouanet
O desfile da Acadêmicos de Niterói não será financiado pela norma Rouanet de incentivo à tradição, diferentemente do que chegou a circular nas mídias sociais. A escola chegou a receber em dezembro autorização da Comissão Nacional de Incentivo à tradição e da Secretaria de Fomento e Incentivo à tradição para captar até R$ 5,1 milhões para a apresentação. Em razão do prazo exíguo, a agremiação desistiu de tentar captar recursos.
A norma Rouanet opera sem qualquer transferência de recursos do administração federal para projetos culturais. Produtores que têm suas propostas autorizadas, após análise técnica dos dois órgãos do Ministério da tradição, podem tentar captar o valor autorizado junto a empresas e indivíduos contribuintes do Imposto de Renda. Os eventuais patrocinadores podem abater o valor do financiamento do imposto devido – até 4% se for companhia e até 6% se for pessoa física.
No dia 19 de janeiro, a Embratur e a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) assinaram um termo de cooperação técnica, com a interveniência do Ministério da tradição (MinC), que permite o repasse de R$ 1 milhão para cada agremiação do grupo especial de escolas de samba do Rio – um total de R$ 12 milhões a serem investidos neste carnaval.
Conheça os enredos e a ordem dos desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro
1º dia – domingo (15/2)
- Acadêmicos de Niterói - Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do país;
- Imperatriz Leopoldinense - Camaleônico;
- Portela - O Mistério do Príncipe do Bará;
- Estação Primeira de Mangueira - Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – o Guardião da Amazônia Negra
2º dia - segunda-feira (16/2)
- Mocidade Independente de Padre Miguel - Rita Lee, a Padroeira da Liberdade;
- Beija‑Flor de Nilópolis - Bembé do Mercado;
- Acadêmicos do Viradouro - Pra Cima, Ciça;
- Unidos da Tijuca - Carolina Maria de Jesus.
3º dia - terça-feira (17/2)
- Paraíso do Tuiuti - Lonã Ifá Lukumi;
- Unidos de Vila Isabel - Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África;
- Acadêmicos do significativa Rio - A Nação do Mangue;
- Acadêmicos do Salgueiro - A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau.