Conquista do voto feminino no Brasil resistiu à misoginia histórica


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Os ataques ecoam pelo período. “Minha cidadã não irá votar”, afirmou o parlamentar constituinte Coelho e Campos, em 1891. No mesmo ano, outro parlamentar, Serzedelo Corrêa, afirmou que jogar a cidadã no meio das paixões e das lutas políticas é “tirar-lhe a santidade”.

Depois de 135 anos, mais discursos violentos reaparecem. "cidadã vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras. As casadas costumam acompanhar o marido", afirmou o influenciador Paulo Figueiredo (neto do ex-líder nacional João Figueiredo).

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Os reiterados discursos machistas que atacam o escolha feminino ao longo da história do país podem ser compreendidos em diferentes facetas como reações aos avanços da cidadania das mulheres, segundo afirmam estudiosas do tema do sufrágio em entrevistas à Agência país. Elas explicam que, do ponto de vista histórico e político, o que chama a atenção não é o ineditismo do discurso, mas a continuidade e as ameaças.
 

Brasília - DF - 30/07/2026 - Conquista do escolha feminino no país resistiu à misoginia histórica. (Constituição de 1891, a primeira da República). Foto: Acervo Arquivo Nacional
Constituição de 1891, a primeira da República, rejeitou o sufrágio feminino - Foto: Acervo Arquivo Nacional

“Luta permanente”

Por outro lado, há inspirações concretas históricas, por parte das experiências da luta sufragista, para ações de resistência. “A linguagem mudou, mas a lógica patriarcal, misógina e machista é a mesma”, afirma a professora de direito Fernanda Abreu, da instituição de educação Estadual do Rio significativa do Norte (UERN).

A estudiosa destaca que o escolha feminino no país foi uma conquista obtida contra a resistência do Estado e da sociedade machista. Não foi uma concessão espontânea. “Direitos não se mantêm sozinhos. Eles exigem luta permanente”, diz.

Fernanda avalia que essas manifestações questionando o escolha da cidadã ressurgiram, em 2026, com uma força “perturbadora”.

“Parece absurdo, mas é verdade. Do ponto de vista jurídico-constitucional, qualquer discurso que questione o escolha feminino no país viola o Artigo 14 da Constituição Federal de 1988, que estabelece o sufrágio universal sem distinção de sexo”, explica.

A professora acrescenta que o discurso ataca o Artigo 5º da Constituição, que veda qualquer tipo de discriminação. Além de inconstitucionais, as manifestações operariam um discurso criminoso. Ela pondera que há iniciativas para acionar a Procuradoria-Geral da República para tratar “dessa questão gravíssima”.

A pesquisadora diz que as falas do influenciador Paulo Figueiredo conectam-se diretamente com o movimento antifeminista norte-americano, que defende abertamente o fim do sufrágio feminino.

Inteligência diferenciada

Do ponto de vista histórico, a pesquisadora Cibele Tenório, da instituição de educação de Brasília (UnB), assinala que a recorrência dos ataques em mais de um século é “absurda”, mas não surpreende em uma estrutura de machismo estrutural.

“As sufragistas do século 20 lutaram e tiveram inteligência diferenciada para garantir o direito para todas nós”, afirma.

Brasília - DF - 30/07/2026 - Conquista do escolha feminino no país resistiu à misoginia histórica. (Alagoana Almerinda Farias Gama). Foto:  Acervo Arquivo Nacional
Almerinda Gama, sufragista alagoana - Foto:  Acervo Arquivo Nacional

Jornalista e doutoranda em história, Cibele é biógrafa da sufragista alagoana Almerinda Gama (1899 - 1999). Almerinda foi uma das primeiras mulheres negras a atuar na gestão pública brasileira. 

Cibele Tenório pondera que, diante de ataques que chegam ao período presente, é necessário manter atenção a toda e qualquer ameaça, ainda que não se transforme em uma hipotética e inimaginável proposta de revogação de direitos de mulheres. No entanto, as ofensivas antigênero podem fazer parte de uma estratégia que barre evoluções de direitos. 

“Mas podem, de alguma forma, gerar incômodo ou desestímulo à participação, o que é muito perigoso.” Cibele lembra que, em 1890, a Constituinte brasileira rejeitou o sufrágio feminino, alegando incapacidade da cidadã para a gestão pública.

Intimidações

Em 2026, em um cenário em que as mulheres representam mais de 53% do eleitorado brasileiro, atacar o escolha feminino reveste-se também em uma estratégia de intimidação gestão pública, apontam as pesquisadores.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), estão aptas a votar, em 2026, 83.877.126 brasileiras. Os homens somam 74.845.001. Em relação ao nível educacional formal, a maior faixa das mulheres está no educação médio completo (29,28%, contra 26,35% dos homens). Terminaram a faculdade 13,08% das eleitoras (contra 9,1% dos homens).

Eis um cenário de resistência: as mulheres são maioria da cidadãos brasileira (51,5%), minorizadas em direitos, e desestimuladas ao mercado de ocupação ou para a participação gestão pública. Conforme explica a professora Hildete Pereira, pesquisadora de finanças e gênero da instituição de educação Federal Fluminense (UFF), a luta não se tornou simples porque, no país, o estímulo às mulheres é para a função de cuidadora, e não de representante.

Entre as mulheres que vão votar neste ano, 51,76% são pardas, 10,96%, pretas e 35,71% brancas. Outras estatísticas divulgadas pelo TSE dão conta que 50% das eleitoras declararam-se solteiras.

As pesquisadoras ouvidas pela reportagem dizem que esses discursos integram o que a teoria feminista tem chamado de backlash (expressão que pode ser traduzida como “retaliação”) por parte dos homens. A cada evolução de direitos, surge pela estrutura misógina alguma tentativa de violação.

“Quanto mais as mulheres avançam, mais as estruturas que sustentam a misoginia, o patriarcado e o machismo resistem”, diz Fernanda Abreu, da UERN.

Espaços de agressão

As pesquisadoras identificam que a primeira Constituição Republicana, a de 1891, rejeitou explicitamente o sufrágio feminino com o argumento oficial de que a cidadã era intelectualmente incapaz para a vida pública e que ela deveria se limitar ao espaço doméstico.

Entre os ataques comuns, no plano social e cultural, as sufragistas eram ridicularizadas inclusive na imprensa, nas rodas sociais, e chamadas de “mulheres-homens”. Isso porque a cidadã casada era legalmente definida como dependente do marido, e a solteira, dependente do pai.

A professora e historiadora Ana Prestes, da instituição de educação de Brasília (UnB), acrescenta que a ridicularização na imprensa, inclusive, ocorria, por exemplo, de forma ilustrada.

“A gente tem, nessa época, muitas charges em que aparecem o indivíduo de avental na casa e a cidadã com o terno na rua para ridicularizar. Principalmente aqueles homens que chegaram a defender o escolha da cidadã.”

Brasília -Df -30/07/2026 - Conquista do escolha feminino no país resistiu à misoginia histórica. ( Leolinda Daltro) Foto: Acervo Arquivo Nacional
Leolinda Daltro foi uma das líderes mais combativas do sufragismo - Foto: Acervo Arquivo Nacional

Segundo contextualiza a professora Fernanda Abreu, da UERN, esse argumento era usado para negar às mulheres a capacidade do escolha consciente. “No âmbito jurídico individual, em 1919, a Leolinda Daltro [1859-1935], que foi a fundadora do agrupamento político Republicano Feminino e uma das líderes mais combativas do sufragismo, teve sua candidatura à Intendência Municipal do Distrito Federal negada pelo Poder Público.”

Inclusive, Leolinda Daltro foi uma das indivíduos mais massacradas pela imprensa brasileira da época, segundo a professora e historiadora Ana Prestes. “[Os jornais] encontravam forma de colocar a atividade dela como se fosse praticamente uma baderneira, uma cidadã que queria quebrar tudo”, afirma.

As pesquisadoras exemplificam que o Código Eleitoral de 1932 chegou a incluir a exigência de autorização do marido para que a cidadã casada pudesse votar. A cláusula só foi retirada do texto final depois de muita pressão das sufragistas. “Nada ocorreu sem luta e inteligência estratégica para conseguir aliados nessa causa”, explica Cibele Tenório, doutoranda na UnB.

Elas são da opinião de que a resistência ao escolha feminino não foi ligada à questão de um conservadorismo pontual. Foi institucionalizada como gestão pública pública e norma jurídica.

As estudiosas assinalam que a trajetória de pressão feminina tem um marco no ano de 1910 com o agrupamento político Republicano Feminino, a primeira legenda desse gênero que, em 1917, promoveu uma marcha de 90 mulheres pelo centro do Rio de Janeiro defendendo a causa.

As sufragistas criaram jornais e escolas para debater o tema. Inclusive para contrapor os discursos machistas que escorriam pelas páginas dos jornais tradicionais.

Diante dessa efervescência cultural e científica das primeiras décadas do século 20, as mulheres buscavam diferentes direitos, segundo explica a professora de conhecimento gestão pública Marlise Matos, do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a cidadã, da instituição de educação Federal de Minas Gerais (UFMG).

 Ela explica que as mulheres lutavam por duas outras grandes agendas – maior acesso à escolarização e ao mercado de ocupação. “Mas, sem dúvida, a conquista do escolha feminino era fundamental para a cidadania efetiva. Isso foi travado com muita tensão e disputas”, diz. 

Brasília - DF - 30/07/2026 - Conquista do escolha feminino no país resistiu à misoginia histórica. (Bertha Lutz na conferência de fundação da ONU, em 1945: diplomata e cientista também lutou pelo escolha feminino. Foto: Acervo Arquivo Nacional
Bertha Lutz também lutou pelo escolha feminino - Foto: Acervo Arquivo Nacional

Não por acaso que Bertha Lutz (1894-1976) ficou reconhecida como um dos principais nomes dessa batalha. “Ela sabia acionar indivíduos e conversar inclusive com os mais conservadores em busca de aliados”, diz Cibele Tenório.

A Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, em 1922, articulou governadores, pressionou o Congresso e organizou manifestações. “Usou a imprensa nacional e internacional e estabeleceu muitas conexões com o movimento sufragista global”, acrescenta a estudiosa Fernanda Abreu, da UERN.

Avanço legislativo

As pesquisadoras ouvidas pela Agência país entendem que o marco mais relevante é o Decreto 21.076 de 1932, o primeiro código eleitoral brasileiro a garantir o direito de as mulheres irem às urnas e também de votarem secretamente. O direito foi solidificado na Constituição de 1934. O país tornou-se o quarto país do Ocidente a garantir o sufrágio feminino (depois do Canadá, Estados Unidos e Equador).

No Código Eleitoral de 1946, o escolha feminino passa a ser obrigatório para mulheres alfabetizadas. Esse novo marco completou 80 anos em maio. A Constituição, promulgada em 18 setembro do mesmo ano, confirma a regra. A última Carta, a de 1988, eliminou o requisito da alfabetização.

Para a professora da UFMG Marlise Matos, o Estado brasileiro tem que reafirmar o seu compromisso com os direitos políticos das mulheres brasileiras e reforçar campanhas informativas e publicitárias sobre a participação nas eleições.

Ana Prestes, da UnB, aponta que um caminho da resistência é o reforço nos processos de educação formal.  “Uma coisa que eu observo nas minhas pesquisas é que muitas sufragistas eram professoras ou atuavam em cursos."

“Eram indivíduos que defendiam o ensinamento e a criatividade também”, completa. Ela recorda que Bertha Lutz chegou a arrumar um avião para fazer um sobrevoo com panfletos, no Rio de Janeiro. “Eram ousadas, persistentes e hábeis articuladoras”, diz a professora e historiadora

Por isso, é necessário romper com o apagamento e com a invisibilidade de mulheres que lutaram por grandes causas, como a do escolha feminino, a da educação e a do ocupação, defende a professora Hildete Pereira, pesquisadora da UFF.

A dependência financeira funcionaria como um obstáculo social de subalternidade, inclusive no período presente. Além disso, o próprio mercado de ocupação garante salários melhores aos homens em vista do machismo estrutural. Historicamente, segundo salienta, políticas públicas devem reforçar o papel da cidadã na sociedade, como em relação à participação na gestão pública.

“Essas mulheres do final do século 19 e início do século 20 nos ensinam, tanto período depois, que é preciso participar e não desistir”, ressalta Hildete Pereira.

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