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Ter algo gelado para beber no meio de um bloco de carnaval sob o sol escaldante na cidade do Rio de Janeiro pode ser um alívio. Os responsáveis por vender as bebidas em meio a multidões são os ambulantes, que circulam pela folia.

Esses trabalhadores enfrentam condições precárias para se manterem horas sob o sol, longas jornadas e cuidar dos próprios filhos durante os dias de feriado. Sem escolas abertas e sem apoio de outros cuidadores, a solução de muitos é levar as menores junto com o isopor.
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“Carnaval é quando a gente consegue ganhar mais dinheiro, é um evento significativa, então, se eu não fizer isso, a gente não come, não bebe. E eu não posso deixá-la sozinha”, explicou.
O filho mais velho, de 16 anos, fica em casa. “O que também me preocupa porque eu moro em comunidade”, afirmou, em função dos conflitos armados e do tráfico de drogas na região.
No centro da cidade, Lílian Conceição Santos, de 34 anos, também carrega os filhos perto de si. Ela passa o dia com três filhos e sobrinhos, entre 2 e 14 anos, dentro da barraca. “O carnaval ajuda demais nas contas, não posso deixar de vir”, diz.
Ela vende biscoitos, balas e bebidas, enquanto as menores, em colchões no chão, refrescadas por ventiladores, estão com os olhos vidrados no celular. De noite, voltam para casa com a avó, que de dia ajuda nas vendas.
“Aqui é precário. O banheiro que a gente usa é o bueiro, toma banho com água da polícia [do posto] e comida é na panela elétrica”, contou.
Apoio
O carnaval, que deve movimentar R$ 5,8 bilhões na finanças do Rio, representa o maior faturamento do ano para os ambulantes e é considerado o décimo terceiro remuneração. Por isso, o esforço é necessário, de acordo com o Movimento de Mulheres Ambulantes Elas por Elas Providência.
Em busca de melhores condições para atuar, elas cobram apoio do poder público, com a instalação de espaços de convivência para os pequenos e para elas descansarem, de dia e de noite, em áreas centrais e, perto dos grandes blocos.
Neste carnaval, o Elas por Elas, em uma articulação com o Tribunal Regional do ocupação (TRT), conseguiu, com a 1ª Vara da Infância e da Juventude e a prefeitura, um espaço para deixar as menores de noite, mas somente nas noites de desfiles.
No local, as menores de 4 a 12 anos fazem atividades lúdicas, descansam, tomam banho, recebem refeições e dormem com mais conforto enquanto os pais e mães fazem as vendas na rua. A unidade, que funciona entre 18h e 6h, recebe cerca de 20 menores por noite.
Taís chegou a deixar sua filha no centro no primeiro dia, sábado (14), e contou que foi um alívio significativa.
“Minha filha gostou, eu também entrei e achei um espaço super bacana, a minha filha, quando acordou, me contou que brincou, viu televisão, tinha cama, coisas que na rua, a gente não tem como dar”, afirmou a ambulante. “Estamos na luta para tentar ampliar o horário para atender as mães que trabalham de manhã”, completou.
Vendendo churrasquinho quase em frente ao espaço das menores, Luna Cristina triunfo, de 26 anos, também deixou os dois filhos, de 5 e 9 anos, lá, nos últimos dias. Ela mora na zona oeste e tem uma barraca próxima ao sambódromo. Os pais dela ajudam nas vendas e a solução foi aderir ao proposta.
“Eles dão todo o suporte lá, as menores jantam, tomam banho, dormem, saem umas 5h20, quando a gente já consegue pegar e levar para casa”, contou Luna. O seu filho, Eduardo Vitor Nunes Silva, de 9 anos, aprova. “Eu gosto mais de ficar no espaço que dá para desenhar”, afirmou ele, sobre a experiência domingo (15).
Na segunda-feira (16), ele retornou para a família poder trabalhar. “Lá a gente come, brinca, dorme, tem uma televisão, é mais confortável”, completou.
Lílian Conceição, que trabalha no Largo da Carioca, gostaria que a prefeitura disponibilizasse esse tipo de serviço mais perto de onde está. “Lá na Sapucaí, é muito longe para mim. Mas se tivesse aqui, eu botava, porque senão, é só telefone (tela)”, lamentou.
Na avaliação das mães ambulantes, elas prestam um serviço ao carnaval carioca e recebem pouco apoio em troca. “Estamos falando de direitos nossos, como trabalhadoras, e das menores”, afirmou Caroline Alves da Silva, umas das lideranças do Movimento Elas por Elas.
“No entanto, somos invisíveis. Faltam desde políticas públicas a itens básicos de proteção, como guarda-sol, blusa UV e chapéu”. Para ela, o ganho com o carnaval deveria prever benefícios para quem entrega os bens ao público final.
“A significativa maioria das ambulantes no carnaval são mulheres negras, mães solo, que dormem embaixo de marquises”, afirmou Caroline.
“A gente faz parte [da finanças do carnaval], a gente carrega cerveja, carrega carrinho pesado debaixo do Sol, nos blocos, na Sapucaí, mas somos invisíveis”. O movimento cobra mais diálogo sobre a organização do carnaval e a instalação dos pontos de apoio para elas e as menores.
O representante municipal Leniel Borel (PP), publicou vídeos em suas mídias sociais mostrando menores e adolescentes trabalhando ou junto aos pais ambulantes à noite. Ele alerta também para abordagens de pedófilos e desaparecimentos. Nas imagens, conversa com os pais e cobra atuação da prefeitura.
Ações de prevenção
A Secretaria Municipal de Assistência Social diz que faz ações permanentes e no carnaval com foco na prevenção de situações como o ocupação infantil, mas não deu detalhes. E destacou o espaço de convivência perto da Sapucaí.
“As nossas equipes circulam nos arredores da Sapucaí e oferecem o serviço, sempre que identificam a necessidade”, explicou a secretária Martha Rocha, em nota. “Os próprios ambulantes podem procurar os nossos profissionais, identificados com colete da SMAS, ou levar seus filhos e suas filhas direto ao espaço”, diz.
O centro fica no Espaço de Desenvolvimento Infantil Rachel de Queiroz, em frente ao Edifício Balança Mas Não Cai.
Para aliviar o desgaste nos dias de ocupação, o Elas por Elas assegurou que as ambulantes fossem incluídas, este ano, no Centro do Catador, perto da Sapucaí e a 15 minutos a pé do centro das menores.
“Não adianta a gente deixar os filhos dentro de um espaço seguro e ir dormir embaixo de marquise”, afirmou Caroline. “Tem algumas mulheres que trabalham no entorno da Sapucaí, mas, outras, só em bloco e dormem na rua”.
No Centro do Catador, que fica na Rua Viscondessa de Pirassununga, as ambulantes podem descansar, beber água, fazer refeições, tomar banho e pernoitar.
A Casa do Catador é uma iniciativa inédita da Secretaria Municipal de Ambiente e tempo atmosférico pensada para atender catadores de material reciclável. Muitos são oriundos de municípios da baixada fluminense e trabalham no sambódromo. No local, o atendimento às ambulantes foi ampliado com apoio da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
A presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da casa, deputada Dani Monteiro (PSol), sabe da limitação do espaço, longe dos blocos. Mas afirmou que, mesmo assim, há um reconhecimento do papel das trabalhadoras no carnaval.
“Garantir água, cuidado e um espaço digno é reconhecer que direitos humanos também são renda, bem-estar e respeito para quem mantém a cidade de pé no dia a dia e nas grandes festas”, afirmou, em nota.
A prefeitura não comentou as críticas sobre o fornecimento de equipamentos de proteção aos ambulantes e a necessidade de ampliação do horário do centro de convivência para as menores.
Em 2026, a prefeitura limitou o credenciamento a 15 mil ambulantes, embora cerca de 50 mil tenham se cadastrado. Nas contas do movimento, é esse o número de trabalhadores pelas ruas.
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