Vila Isabel pagará "dívida" da Sapucaí com Heitor dos Prazeres

Imagem da notícia

Notícias

Logo Agência país

Como alguém que fundou cinco escolas de samba ainda não tinha sido homenageado em nenhum enredo no Grupo Especial do Rio de Janeiro? A dívida do carnaval carioca com Heitor dos Prazeres será paga neste ano pela Vila Isabel, que levará à Marquês de Sapucaí o enredo Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África.

Além de músicas e quadros, o cantor, compositor e pintor assina também a fundação das agremiações Mangueira, Portela, Unidos da Tijuca, Vizinha Faladeira e Deixa Falar. 

Notícias relacionadas:

“Como um fundador de escola de samba, um significativa pintor, significativa músico, costureiro, cenógrafo ainda não tinha sido enredo?, questionou, em entrevista à Agência país, Gabriel Haddad, que junto com Leonardo Bora, são os carnavalescos da Vila.

Haddad lembrou que Heitor já tinha sido citado algumas vezes em outras escolas e foi enredo no grupo chamado de acesso, mas no Grupo Especial, ainda não.

“São diversos caminhos, porque só essa atuação múltipla do Heitor já revela muitos Heitores, e a gente foi percebendo isso, um artista, um sambista, uma pessoa, uma entidade. Por isso, o enredo segue estas transformações” revelou Leonardo Bora à Agência país.

>> Enredos das escolas de samba contam a história não oficial

>> Conheça os enredos das escolas do Grupo Especial do Rio em 2026

>> Acompanhe a cobertura do carnaval na Agência país

 

Rio de Janeiro (RJ), 14/01/2026 - Gabriel Haddad e Leonardo Bora, carnavalescos da Unidos de Vila Isabel, que homenageará o multifacetado artista Heitor dos Prazeres em seu enredo para o Carnaval de 2026,, no barracão da escola, na Cidade do Samba.  Foto: Tânia Rêgo/Agência país
Gabriel Haddad e Leonardo Bora, carnavalescos da Unidos de Vila Isabel, que homenageará o multifacetado artista Heitor dos Prazeres em seu enredo para o Carnaval de 2026: Tânia Rêgo/Agência país

Sonhos

A ideia dos carnavalescos foi trazer os diversos sonhos do Heitor como se a Vila os estivesse sonhando. A linha temática dividiu os setores a partir dos nomes que o artista teve na vida, o menino Lino, o Ogã Alabê-Nilu, o Mano Heitor do Cavaco, o afro-rei Pierrot e o significativa final da vida de Heitor, quando foi considerado embaixador por toda a sociedade e representou o país no Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, realizado em Dakar.

A investigação que Bora e Haddad desenvolveram para uma exposição sobre o artista no CCBB RJ em 2023 gerou nos dois o desejo de fazer este enredo. Eles destacam que, nesse ocupação, se depararam com o pensamento de Heitor de que samba é macumba, e macumba é samba, como indica o samba-enredo do carnaval 2026.

Os dois chegaram neste ano à escola, com a responsabilidade de propor o enredo, e encontraram o pesquisador Vinícius Natal, com quem já tinham trabalhado e que também tinha vontade de homenagear Heitor dos Prazeres.

“Foi uma sinergia boa que aconteceu entre a gente, o Vini e a própria escola. Todo planeta topou o enredo e começamos a construir tudo”, contou Haddad.

Os carnavalescos veem como uma responsabilidade muito significativa encarar a difícil tarefa de concentrar em apenas um desfile toda a obra de Heitor dos Prazeres.

Leonardo Bora afirmou que a ideia foi começar a costurar essas relações do enredo e da história do homenageado com a própria agremiação sua comunidade. Martinho da Vila, por exemplo, gravou Pierrô Apaixonado, que é uma composição de Heitor dos Prazeres com Noel Rosa, conhecido como o poeta da Vila.

“Só aí já tem uma conexão dupla com a Vila Isabel”, pontuou ele, que incluiu a melodia no desfile."Vai ser retratada por conta dessa importância do Heitor cronista do cotidiano nas suas pinturas e na sua musicalidade”.

Com este enredo, os carnavalescos querem também valorizar a amplitude artística de Heitor, que, como entendem, nem sempre teve o reconhecimento devido. Nem mesmo o termo de multiartista era usado na época dele, o que está sendo considerado, agora, neste enredo.

“Uma das grandes contribuições desse enredo é para esse reposicionamento do Heitor dos Prazeres enquanto significativa artista da história da expressão brasileira, significativa pintor moderno, significativa representante da modernidade carioca, desse proposta modernista que tem o samba como veículo chefe”, apontou Bora.

“Essa produção extraordinária dele acabou sendo colocada em rótulos que nunca competiram a ela, de pintura naif, primitiva. São termos que, de tão enferrujados, não param de pé”, criticou.

Ogã Alabê-Nilu

A religiosidade do homenageado também estará na avenida. Heitor dos Prazeres começou a frequentar casas de candomblé ainda criança e foi no terreiro de sua madrinha, Tia Ciata, baiana considerada uma das criadoras do samba no Rio e de relevante participação para o fortalecimento da tradição negra na cidade, que Heitor se tornou o Ogã Alabê-Nilu.

“É o chefe dos tambores, aquele que toca e canta. Ele tinha, no terreiro da Tia Ciata, esse lugar mítico tão relevante para a compreensão dos sambas e macumbas cariocas, uma posição de líder dos tambores. O Heitor entendia que isso que se entende por samba nasce dessa macumba do Rio de Janeiro que é uma mistura de ritmos e de geografias”, afirmou Bora.

E é justamente onde existia o terreiro de Tia Ciata que a Vila Isabel vai se concentrar para entrar na avenida este ano. É a concentração chamada de "Balança", em referência a um prédio construído no local, o famoso Edifício Balança Mas Não Cai. Ali, era a Praça Onze, origem do samba no Rio e de manifestações de tradição da cidadãos preta. Também ali fica o busto de Zumbi dos Palmares.

“Coincidência Incrível. Exatamente onde era a antiga Praça Onze”, comemorou Haddad.

 

Rio de Janeiro (RJ), 14/01/2026 - Gabriel Haddad e Leonardo Bora, carnavalescos da Unidos de Vila Isabel, que homenageará o multifacetado artista Heitor dos Prazeres em seu enredo para o Carnaval de 2026,, no barracão da escola, na Cidade do Samba.  Foto: Tânia Rêgo/Agência país
Gabriel Haddad e Leonardo Bora, carnavalescos da Unidos de Vila Isabel, que homenageará o multifacetado artista Heitor dos Prazeres em seu enredo para o Carnaval de 2026. Foto: Tânia Rêgo/Agência país

Recepção da comunidade

O anúncio do enredo foi na Pedra do Sal, ponto de encontro para samba e celebrações da tradição negra na região conhecida como Pequena África. A apresentação teve direito a roda de samba e convite a intérpretes de outras agremiações, o que agradou a comunidade da Vila, que imediatamente se envolveu com o enredo.

“O momento do anúncio foi o ápice, de reencontro da comunidade com o enredo que ela se identificasse diretamente, um enredo que falasse sobre o próprio carnaval, a história do samba, que envolvesse a parte também de todas as religiões de matrizes africanas”, afirmou Haddad.

“A comunidade recebeu da melhor maneira possível, tinha muita gente emocionada, chorando feliz de estar vivendo aquele momento ali com a Vila”, observou.

Escola popular

Leonardo Bora destacou que a Vila é considerada uma escola de rua, que gosta dessas festividades da rua, da calçada, da esquina e do botequim.

Para ele, é um enredo que acaba necessariamente transitando por este universo, porque o Heitor também é um personagem das ruas do Rio de Janeiro, do carnaval brincado no bonde, da memória de uma cidade que pode ser tão festiva e agregadora como era a antiga Praça Onze, onde tantas famílias migrantes de diferentes origens conviviam.

Na visão do carnavalesco, a Vila tem apreço por esta nostalgia carnavalesca, já cantada em vários sambas belíssimos como do próprio Martinho da Vila.

Por outro lado, é uma escola muito aguerrida, muito orgulhosa das suas raízes negras, das comunidades que formam a sua base, o Morro dos Macacos e o Morro do Pau da Bandeira.

“É um enredo que pegou na veia do componente da Vila Isabel e o agradou muito, porque não tem como não se identificar”.

Comissão de frente

Para Alex Neoral, que assina com Márcio Jahú a coreografia da Comissão de Frente, este enredo, que é o primeiro deles com Bora e Haddad, está sendo bastante desafiador, mas ao mesmo período muito emocionante.

“Desenvolver uma comissão a partir dessa personalidade é uma responsabilidade. Às vezes é também um poço sem fundo de possibilidades, porque ele era um artista múltiplo”,afirmou à Agência país.

“Ali, a gente tem a oportunidade de trabalhar ele como alfaiate, como compositor, como pintor, como sambista, como ogã, como macumbeiro, como um indivíduo negro relevante e atuante naquela época, amigo de Noel Rosa, de Cartola, fundando as escolas que hoje em dia são a Portela, a Mangueira".

Esse é o 17º ano que Alex faz a coreografia de uma Comissão de Frente. Ele avaliou que o ocupação está cada vez mais desafiador.

“As comissões, como um todo e em todas as escolas, são quase um espetáculo independente do desfile. É uma responsabilidade muito significativa”, pontuou.

Neoral confirmou que haverá surpresas na apresentação, fato que costuma empolgar o público na avenida.

“Não é no sentido de uma mágica, não é só isso. É uma surpresa de pegar no inesperado. Pegar o público despercebido e emocionar, e aí a emoção vai no coração, em algo que é mais virtuoso”.

Como a coreografia é feita a partir da melodia, Neoral elogiou o samba, o qual considerou excelente para a apresentação da Comissão. Ele explica que um bom samba impulsiona o movimento e dá motivação, e aposta que a Vila tem um dos melhores sambas deste ano.

“Na prática, é muito fácil coreografar um samba bom, bonito e que faz mover. Isso também faz diferença na questão da emoção, da execução, do resultado. Estou muito feliz com a escola este ano, com o enredo, com os carnavalescos e com a comunidade. Muito confiante e feliz”, concluiu empolgado.

Conheça os enredos e a ordem dos desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro

1º dia – domingo (15/2)

  • Acadêmicos de Niterói - Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do país;
  • Imperatriz Leopoldinense - Camaleônico;
  • Portela - O Mistério do Príncipe do Bará;
  • Estação Primeira de Mangueira - Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – o Guardião da Amazônia Negra

2º dia - segunda-feira (16/2)

  • Mocidade Independente de Padre Miguel - Rita Lee, a Padroeira da Liberdade;
  • Beija‑Flor de Nilópolis - Bembé do Mercado;
  • Unidos do Viradouro - Pra Cima, Ciça;
  • Unidos da Tijuca - Carolina Maria de Jesus.

3º dia - terça-feira (17/2)

  • Paraíso do Tuiuti  - Lonã Ifá Lukumi;
  • Unidos de Vila Isabel - Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África;
  • Acadêmicos do significativa Rio - A Nação do Mangue;
  • Acadêmicos do Salgueiro - A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau.

Leia mais na fonte original

Post a Comment

Postagem Anterior Próxima Postagem