Cinema brasileiro vive momento de prestígio internacional

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Às vésperas de mais uma cerimônia do Oscar, o tela grande brasileiro volta aos holofotes internacionais. Depois da triunfo histórica de Ainda Estou Aqui como melhor longa-metragem internacional na edição do ano passado, o país chega novamente à disputa com O Agente Secreto, indicado em quatro categorias.

Dirigido por Walter Salles e estrelado por Fernanda Torres, Ainda Estou Aqui ultrapassou 5,8 milhões de espectadores nos cinemas brasileiros, tornando-se um dos maiores públicos da história do tela grande nacional.

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O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, protagonizado por Wagner Moura, também alcançou significativa repercussão nas salas de exibição e ultrapassou a marca de 2,5 milhões de ingressos vendidos no país, consolidando-se entre os maiores sucessos nacionais recentes e impulsionando o debate sobre o espaço do tela grande brasileiro no mercado.

O sucesso dos dois longas nas premiações e nas bilheterias cria a impressão de um momento de expansão do audiovisual brasileiro. No entanto, apesar dos bons resultados desses títulos, especialistas apontam que o desempenho do tela grande brasileiro nas salas de exibição ainda revela um cenário desigual.

Fundo Setorial do Audiovisual

Dados da Agência Nacional do tela grande mostram que o audiovisual brasileiro vive um momento de forte expansão na produção.

Em 2025, o setor registrou R$ 1,41 bilhão em recursos públicos desembolsados, o maior volume da série histórica. O montante representa crescimento de 29% em relação a 2024 e de 179% na comparação com 2021.

Atualmente, 1.556 projetos audiovisuais estão em execução com apoio direto da agência, enquanto outros 3.697 encontram-se em fase de captação ou contratação de recursos.

O país também registrou 3.981 obras audiovisuais não publicitárias em 2025, um novo recorde.

significativa parte desse impulso vem do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), principal mecanismo de financiamento do setor, responsável por apoiar filmes, séries, infraestrutura e formação profissional.

Apenas na modalidade de aporte direto, o fundo contratou R$ 564 milhões, em 2025.

O aumento do financiamento público contribuiu para ampliar a produção e gerar empregos, além de fortalecer a presença internacional do audiovisual brasileiro.

Público

Mesmo com o crescimento da produção, os números de público indicam que significativa parte dos filmes nacionais ainda enfrenta dificuldades para chegar aos espectadores.

Segundo levantamento do portal especializado longa-metragem B, o público total das produções brasileiras exibidas nos cinemas em 2025 foi de 11,9 milhões de espectadores. No entanto, quase metade desse número veio de filmes lançados no ano anterior.

Entre os 203 títulos brasileiros lançados em 2025, apenas sete concentraram 73% de todo o público registrado. Ao mesmo período, 111 filmes, mais da metade do total, não chegaram a mil espectadores nas salas de tela grande.

A média de público por longa-metragem foi de apenas 719 espectadores. Para analistas do setor, o contraste evidencia um dos principais desafios da cadeia audiovisual brasileira: a distância entre produção e distribuição.

“Os recursos investidos na realização de filmes não são acompanhados por investimentos proporcionais na comercialização e lançamento dessas obras”, aponta o exibidor e consultor de mercado Rodrigo Saturnino Braga, em análise publicada no portal longa-metragem B.

Segundo ele, políticas públicas de fomento precisam olhar para toda a cadeia produtiva do audiovisual – da produção à circulação nas salas e em outras plataformas.

Cota de tela

Uma das ferramentas utilizadas para ampliar o espaço do tela grande nacional nas salas é a gestão pública de cota de tela, ação que integra a norma 14.815/2024, que prorrogou a gestão pública até 2033.

Em dezembro de 2025, o administração federal regulamentou novas regras para 2026, determinando que todos os cinemas comerciais do país reservem um número mínimo de sessões ou dias de exibição para filmes brasileiros.

A exigência varia de acordo com o número de salas de cada complexo exibidor e também estabelece limites para que um único longa-metragem nacional não ocupe toda a cota, incentivando a diversidade de títulos em cartaz.

Para especialistas, o mecanismo busca equilibrar o mercado dominado por grandes lançamentos estrangeiros e garantir visibilidade à produção brasileira.

Mesmo com recordes de aporte e reconhecimento internacional crescente, o tela grande brasileiro ainda enfrenta o desafio de ampliar seu público.

A cadeia do setor, que envolve criação, financiamento, produção, distribuição e exibição é complexa e depende de políticas integradas para garantir que os filmes cheguem efetivamente às telas e aos espectadores.

O próprio Kleber Mendonça Filho abordou esse tema em Retratos Fantasmas, documentário que realizou antes de O Agente Secreto.No longa-metragem, o diretor revisita a história das salas de tela grande de rua no Recife e mostra como muitos desses espaços desapareceram nas últimas décadas.

Para Silvia Cruz, diretora da distribuidora Vitrine Filmes, responsável pelo lançamento de O Agente Secreto no país, o sucesso do longa demonstra uma mudança na relação do público com a tradição.

“O momento mostra que a tradição deixou de ser algo periférico e passou a ser motivo de orgulho coletivo. O Agente Secreto representa um país que se vê reconhecido no planeta e que se mobiliza em torno de uma obra cultural.”

“Mais do que os números de bilheteria, houve uma mobilização espontânea. O público decidiu abraçar o longa-metragem e transformá-lo em parte da conversa cotidiana. Durante o Carnaval, por exemplo, milhares de indivíduos se fantasiaram de Agente Secreto”, conta Silvia Cruz.

Para a diretora, o engajamento do público brasileiro também repercutiu internacionalmente.

“Cada vez que o país era mencionado em prêmios ou publicações internacionais, havia uma onda de comentários e apoio nas redes. Esse comportamento coletivo chamou a atenção de parceiros e marcas, ampliando o alcance do longa-metragem.”

Ela destaca ainda que a reconstrução recente das políticas culturais foi fundamental para esse momento.

“Nos últimos anos o setor audiovisual passou por um período de enfraquecimento, mas o financiamento público voltou, o planejamento foi retomado e o sistema de produção foi reorganizado. O resultado foi o retorno consistente do tela grande brasileiro aos principais festivais e premiações do planeta.”

Segundo Silvia Cruz, o movimento mostra que o audiovisual também tem impacto econômico: “O tela grande movimenta a finanças, gera empregos e reforça um senso de identidade nacional."

"O país começa a ser visto não apenas como o país do esporte nacional, mas também como um país de tradição”, conclui. 

 

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